Homem da areia e sonhos intranquilos

Todo mundo, sem exceção, gosta de uma boa história de fantasmas. Você pode ser o mais medroso ou o mais racional dos ouvintes, mas, nem que seja por um instante, o terror nos é lembrado, seja na forma de um leve frio na barriga ou de um passageiro calafrio na espinha. Se assim é, prepare-se para Der Sandmann, ou O Homem da Areia, de E.T.A. Hoffmann (Ernst Theodor Amadeus Hoffmann) que utiliza um conto infantil – o do homem que joga areia nos olhos das crianças para que elas durmam – para criar uma história que daria inveja a muitos roteiristas medíocres de Hollywood.

Em O Homem da Areia, nosso herói, Natanael, personaliza a fábula que a mãe se utiliza para fazê-lo ir para a cama. Em vez de manter o homen que joga areia nos olhos das crianças para que elas peguem no sono apenas em seu imaginário, ele o associa a Coppelius, o assustador e desagradável advogado e amigo de seu pai, que visita a casa sempre quando o menino está em vias de ir dormir. Tudo isso, possivelmente, seria lembrado, apenas, como uma bobagem infantil, se, certa noite, ele não tivesse se escondido no escritório de seu pai para saber o que ele e Coppelius faziam. Sendo descoberto, quase serviu de material para os experimentos dos dois homens, mesmo com relutância de seu pai. Some-se a isso, uma última visita do advogado que resultou na morte do pai de Nathanael.

Estudante, longe de casa, Natanael escreve uma carta para seu amigo Lothar, contando todos os pormenores de sua infância atormentada por essa fábula, como também que ela parece ter voltado para perturba-lo ainda mais: esse homem asqueroso não só o encontrou, dotado de outro nome e profissão, como parece querer fazer -lhe algum mal.

A fantasia sempre irá – por meio de fadas, monstros e fantasmas – falar sobre coisas e sentimentos muito reais. Monstros normalmente servem como espelho ou para externar um sentimento subterrâneo mas complexo e aparições fantasmagóricas normalmente estão ligadas ao passado. Temos uma mescla disso em O Homem da Areia, e a dúvida – cerne de uma boa história de terror – se nosso herói está vendo algo real ou simplesmente enlouquecendo.

Literatura Fantástica ou Literatura de Fantasia?

Acho que aqui cabe uma pequena discussão, daquelas que ninguém presta muita a atenção, mas que no fundo fazem uma grande diferença… Vamos lá: possivelmente se eu disser “uma história pode ser fantástica ou fantasiosa” você vai olhar pra mim e dizer “mas, não é a mesma coisa?”. Não, não é. Veja só o que Todorov fala sobre a Literatura Fantástica:

Primeiro, é preciso que o texto obrigue o leitor a considerar o mundo das personagens como um mundo de criaturas vivas e a hesitar entre uma explicação natural e uma explicação sobrenatural dos acontecimentos evocados. A seguir, esta hesitação pode ser igualmente experimentada por uma personagem; desta forma o papel do leitor é, por assim dizer, confiado a uma personagem e ao mesmo tempo a hesitação encontra-se representada, torna-se um dos temas da obra.

Resumindo: se você lê algo em que acontecimentos causam algum tipo de estranhamento, como os vultos nada comuns de Atividade Paranormal, é Literatura Fantástica. Agora se, de repente, aparece a Murta que Geme em Harry Potter, e a para a personagem isso é algo real e cotidiano, isso é Literatura de Fantasia.

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