Não lemos teatro!

Texto originalmente publicado no site Dois Cafés.

Eu sei, pode parecer uma frase exagerada e possivelmente você irá me perguntar: “como você pode ter tanta certeza?”

Aqui, eu poderia agir de má fé e pedir que você repensasse sua experiência como leitor enumerando quantas peças de teatro leu na vida, mas, em vez disso, vou utilizar algo que não costumo fazer muito: os números! Calma, ninguém vai precisar fazer nenhum tipo de cálculo – pelo menos não ainda 😉

Com base no site Publishnews – que baseia-se na consulta de venda simples em grandes livrarias – entre os vinte livros de ficção mais vendidos até a última semana de abril deste ano (2020) temos:

  • 80% dos livros são da América do Norte e Europa, Os 20% restantes são da América do Sul, todos brasileiros;
  • 80% dos livros tem como língua original o inglês. Os 20% restantes vêm do Português (15%) e do Norueguês (5%);
  • Entre eles, 75% são Romances e 25% são coletâneas de contos.

Com uma rápida olhada nesses números poderíamos inferir muitas coisas: que não lemos obras em espanhol, mesmo estando na América do Sul; que privilegiamos autores de Língua Inglesa, mesmo quando colocados ao lado de autores nacionais e – claro; NÃO LEMOS TEATRO!

Segundo Sábato Magaldi, um dos maiores críticos de teatro do país – em entrevista concedida para o portal da Academia Brasileira de Letras – quando lhe é perguntado sobre o descaso com os textos teatrais, ele responde que aqui no Brasil não é tão diferente de outros lugares como a França, por exemplo, que publica mais, mas que as tiragens não ultrapassam os 3 mil exemplares. Pra ele “(…) Ler teatro exige uma disposição especial. O leitor cria o espetáculo na sua cabeça.

Eu concordo com a explicação de Magaldi!

A primeira peça que li foi Sonho de uma noite de verão de William Shakespeare. Sei porque o primeiro livro que li na vida, que não tinha um tema infantil, pouco tempo antes de aventurar-me pelo texto integral, foi a adaptação da peça escrita por Ana Maria Machado.

Ficava encantada! Mesmo nessa época, quando a professora já diz “leia só na sua cabeça”, quando eu chegava em casa lia em voz alta, então imagine a festa! Confesso que devo recompensar muito minha mãe por esse período.

O fato é que, realmente, ler textos de teatro exige um esforço muito maior da imaginação. Parece que não gostamos dos autores que descrevem minuciosamente o ambiente em que estão as personagens, mas a falta de qualquer descrição mais acurada, parece fazer nos afastar também.

Além disso, em nenhum momento será lido “com raiva, ele falou…” ou “o olhar era doce…”. No texto teatral temos que ouvir as personagens e entender o que elas pensam e sentem. É como na vida: temos que prestar atenção no outro. Prestamos?

Então, vamos, sim, ler teatro. Vamos escutar os heróis dessas histórias e, quem sabe, aprender escutar os heróis da nossa própria história.

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