O Gato Preto: entre o sobrenatural e a violência doméstica

As dúvidas suscitadas pelo conto O gato preto têm origem, principalmente, no ponto de vista exclusivo do narrador-personagem de Edgar Allan Poe. Já em suas primeiras linhas, o confesso anuncia que “seria louco se esperasse algum crédito num caso em que (os seus) próprios sentidos rejeitam o que testemunharam.”, mas também, logo em seguida, com extrema veemência afirma não ser louco e que tampouco esteve sonhando.

A partir desses pontos somos convidados a partilhar dessas incertezas, questionando-nos se a confissão que nos é apresentada pode ser interpretada como os delírios de uma mente patologicamente perturbada ou como uma manobra de argumentação de alguém que quer apenas livrar-se da culpa.

O conto mostra a trajetória do narrador que inicia como um bom marido, amante dos animais para um assassino assombrado pela volta do que acredita ser a reencarnação do gato que matou e é justamente essa morte que divide o conto em dois:

  1. Os acontecimentos são da ordem do físico e do “real” – o narrador descreve o seu amor pelos animais (que o acompanha da infância até a vida adulta), anuncia seu casamento precoce com alguém que não tinha “uma índole incompatível” com a sua (o que significava também a predileção por animais de estimação), a adoração pelo gato Plutão e, finalmente, sua degradação motivada pelo “Demônio da Intemperança” – associado aqui ao alcoolismo.
  2. Os acontecimentos são da ordem do sobrenatural – ao encontrar o novo gato o narrador teme que esse animal seja Plutão, que foi por ele assassinado, reencarnado apenas com intuito de assombrá-lo.

Possivelmente o alcoolismo trouxe muito mais do que apenas a deterioração de caráter do narrador. As cenas relatadas mostram mais do que a mudança de comportamento de alguém que passa a ter problemas com o álcool. Em várias passagens, é sugerido um quadro de violência doméstica.

Tornei-me, dia após dia, mais mal-humorado, mais irascível, mais indiferente aos sentimentos dos outros. Dei por mim usando linguagem destemperada para com a minha mulher. E até mesmo de violência física.

A rabugice habitual se transformou em ódio de todas as coisas e de toda a humanidade; ao passo que, diante dos súbitos, freqüentes e incontroláveis ataques de nervoso aos quais agora me entregava cegamente, minha mulher conformada, pobre dela, continuava sendo a mais paciente das sofredoras.

Qual o motivo dessa ira, além do alcoolismo? Ciúmes? Talvez. A mulher, como ele próprio fora um dia, era completamente dedicada aos animais, o traço de comportamento que pode sinalizar o possível sentimento de ciúmes fica mais evidente quando o suposto novo gato é levado para casa:

Ao chegar, imediatamente se sentiu em casa e tornou-se uma das predileções de minha mulher. Quanto a mim, logo passei a sentir uma aversão crescente a ele.

Quanto ao assassinato, seguido do emparedamento da esposa, percebemos que o narrador sente-se mais incomodado com a primeira morte ocasionada por ele (a do gato) do que a de sua esposa. Se na primeira a descrição é “senti um misto de horror e remorso pelo crime de que era culpado; mas foi na melhor das hipóteses, um sentimento débil e ambíguo, e a alma permaneceu incólume.” na última, perturba-nos sua apatia diante o ato, além das ambiguidades sugeridas após o acontecimento:

É impossível descrever ou imaginar a profunda jubilosa sensação de alívio que a ausência da criatura detestada produzia em meu coração. Ela não apareceu durante a noite; e assim, ao menos por uma noite desde o seu ingresso na casa dormi tranquila e profundamente; sim, dormi mesmo com o peso do assassinato na alma.

Nenhum dos atos cometidos pelo narrador é por ele assumido verdadeiramente. Sempre existe algo que o leva a sua prática, porém concentremo-nos no “espírito da perversidade” que Poe também chamou de “O demônio da Perversidade” em um conto homônimo e é dessa forma que o narrador de O gato preto pretende ser visto: mais uma vítima do que um carrasco.

O final do conto é tomado de ambiguidade: a culpa faz com que o homem se delate ou o orgulho pelo crime quase perfeito o pune?

‘Senhores’, eu disse afinal, quando subiam a escada, ‘fico feliz por ter aplacado as suas suspeitas. Desejo-lhes saúde a todos e lhes presto ais uma vez os meus cumprimentos. A propósito, senhores, está é uma casa muito bem construída’ – no desejo enlouquecido de ter o que dizer, eu mal sabia o que acabava de proferir-, eu diria mesmo que é uma casa excepcionalmente bem construída. Estas paredes – já estão de partida senhores? – foram solidamente erguidas”. E então, no simples arrebatamento da bravata, bati com toda a força, com uma bengala que trazia na mão, justamente na parede atrás da qual se encontrava o cadáver da minha adorada esposa.

Essa questão dependerá, exclusivamente, da decisão tomada pelo leitor entre a absolvição ou a culpa do narrador, mesmo em se tratando de um conto fantástico.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social profiles
%d blogueiros gostam disto: