O surgimento dos super-heróis segundo Damon Lindelof

Cuidado: este texto contém spoilers

Lost não me pegou. Então, por mais que eu ouvisse as pessoas maldizendo J.J. Abrams – certo, talvez desse aqui devesse ter desconfiado – e Damon Lindelof eu não tinha como julgar. Foi apenas quando ouvi sobre a nova série da HBO, baseada em Watchmen que fui procurar entender a raiva dos fãs de Jack, James, Hurley e Kate e confesso: tive lá meus receios.

Também vi – e ouvi – muita gente falando de The Leftovers, outra série criada por Lindelof, mas, dessa vez, todo mundo falou muito bem. O placar era 01 contra à 01 a favor.

Sendo assim, reli – pela enésima vez – os quadrinhos e fui de encontro ao remix que trazia de volta o universo criado por Alan Moore 32 anos depois dos acontecimentos da história original, tirando o foco de Nova York e o colocando em Oklahoma, mais especificamente na cidade de Tulsa, e a única coisa que posso dizer é: que grata surpresa!

Preciso, antes de falar sobre a série e, principalmente, sobre o que mais me causou estranhamento, dizer que NADA iria superar a história original. Watchmen está para os quadrinhos como Cidadão Kane de Orson Wells está para cinema ou Ulisses de James Joyce está para a Literatura. Não é uma questão gosto: você pode achar, por exemplo, Cidadão Kane um filme lento, mas nunca poderá dizer que esse não contribuiu de forma definitiva para o modo como, a partir daí, se conta uma história no cinema. É assim com Watchmen nos quadrinhos.

A série da HBO gira em torno da tensão racial e do legado de sangue.Todas as motivações, tudo o que faz a história avançar está ligado a estes dois grandes temas. E é em nome deste legado que vi uma das sacadas de Moore ser, deliberadamente, alterada em favor da história.

Como resumir a série da HBO?

Assim como acontece na história dos quadrinhos, é difícil resumir a série da HBO. Na verdade, o enredo em si é simples, a forma como a história é contada é que realmente complica tudo. Sendo assim, vou deixar por aqui o podcast em que eu e o pessoal do Portal Refil – Bruno Laganá e Baconzitos – e o querido Valdir Fumene Jr. destrinchamos a série, episódio por episódio, com muitos spoilers!

Muito bem, então este post era sobre o que mesmo?

Na história original, no mesmo ano em que Superman faz seu debut nos quadrinhos (1938), um mascarado aparece em Nova York, trocando sopapos com bandidos: era Hooded Justice – em português conhecido como Justiceiro Encapuzado ou Justiça Encapuzada (forma pela qual vou nomeá-lo durante este texto). Pois bem, Justiça Encapuzada foi o primeiro justiceiro mascarado a aparecer no universo criado por Alan Moore e também foi a inspiração para outros fazerem o mesmo. A partir daí temos Capitão Metrópole, Espectral, Dollar Bill, Traça, Silhouette, Comediante… Mas, diferente dos outros justiceiros que Hollis Manson (o primeiro Coruja) cita em sua autobiografia Sob o Capuz, Justiça Encapuzada terminou sua carreira como começou: sem que ninguém, de fato, soubesse de onde veio e quem ele era embaixo da máscara.

O sumiço do Justiça Encapuzada se deu nos anos 50, no período da “grande ameaça comunista”. A caça às bruxas chegou aos mascarados que, nos interrogatórios do Comitê de Atividades Antiamericanas, tinham que revelar suas verdadeiras identidades. Justiça Encapuzada se recusou e nunca mais foi visto.

Três meses depois do desaparecimento de Justiça Encapuzada, também sumiu um desses homens fortes dos circos dos anos 40 e 50 chamado Rolf Müller. Ele era da Alemanha Oriental e foi encontrado com uma bala na cabeça, retirado do mar. Manson acredita que Müller e Justiça Encapuzada eram a mesma pessoa.

E é aí que vemos como Alan Moore sabe do que está falando.

Fora as piadinhas que todo mundo faz com o assunto, simplesmente aceitamos homens atléticos vestindo uma cueca por cima da calça, certo? Você nunca se perguntou o motivo? Por que, homens musculosos vestem collants e cueca por cima da calça? É fácil: todos foram baseados nos atletas de circo: VENHAM VER O HOMEM MAIS FORTE DO MUNDO!

Então, chegamos a Lindelof…

Em Watchmen da HBO, Justiça Encapuzada tem outra origem: ele é o menino que vê sua cidade queimar, torna-se policial e, sabendo que o sistema não está a seu favor, decide agir por conta própria. Tudo motivado em medida pelo racismo e, em segundo, para criar o espelho narrativo com sua neta, Angela Abar, que, sem saber desse legado, também se torna uma justiceira: Sister Nigth.

Will Reeves, após quase ter sido enforcado por seus colegas de departamento, que participavam do grupo supremacista branco Ciclope, utiliza o símbolo do seu flagelo para combater o crime: o capuz e a corda no pescoço. Will foi o menino que viu seu mundo queimar, foi colocado em uma cesta para fora desse mundo e utilizou sua história como forma de combater o crime. Lindelof criou um Superman negro e  que personagem maravilhosa!

Ter criado o estranhamento com a história pensada anteriormente por Alan Moore não é um demérito, só o que realmente disse: um estranhamento. São nessas horas que sempre tento lembrar da frase de Ismail Xavier em seu ensaio Do texto ao filme: a trama, a cena e a construção do olhar no cinema: “ao cineasta o que é do cineasta, ao escritor o que é do escritor”

Lindelof não é cineasta, mas você entendeu o que eu quis dizer 😉

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